"(...)Não te equivoques, Nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro.

Nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, Nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia. E essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, Nathanael, que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.

Quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. Sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. Que o meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti."

André Gide em "Os Frutos da Terra". Paris, 1927.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

porta-retrato


nem todos que olhassem, veriam.
é comum o engano de achar que olhar é sinônimo de ver. muitas das vezes, olhar não é ao menos premissa pra ver. a visão não depende dos olhos. e o olhar é voluntário, caso não se queira olhar, basta fechar os olhos. o ver, por sua vez, é involuntário e com olhos fechados se vê até melhor. eu vi, o que era evidente. eu estava na fotografia. sim, sou eu com todos os meus pecados. mas não tinha porque estar ali, não queria me encontrar. 

de fato, sou eu na foto.
mas eu não estou lá.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

tchaudades


odeio despedidas, sabes bem, mas, ainda sim, insistes em partir. odeio despedidas tanto quanto você odeia essas minhas pausas desnecessárias no meio da frase. me perguntas para quê tanta vírgula e eu pergunto para quê tanta mala, a gente discute pela última vez – nesta semana – já que ficarás fora por um tempo. hora perfeita para você me contar a verdade, que não é apenas uma semana e sim 7 meses e que o destino não é ribeirão preto, é bruges. mas em que lugar do inferno é bruges? - e eu lembro dos sovertes divididos nos bancos claros das manhãs de domingo. lembro do “rock the casbah” no seu quarto e os vizinhos batendo na parede. tá. eu sei que não é o melhor momento pra rir, mas lembra do velho dizendo que a gente ia pro inferno por ouvir aquela música? lembro, perfeitamente, de quantas vezes passamos por essa situação, você partindo e eu ficando por aqui. você diz pela décima primeira vez que vai sentir saudade. e eu digo thcau.


bruges é na bélgica. 

  

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

alma, lama, mala



quando chegou, já não mais esperava por ela. entrou de mansinho pela porta da sala. assustou-se por me ver no canto da sala. e riu. simplesmente, riu. ri junto. e eu jamais ousaria esquecer a brutalidade da sua risada, ainda que fosse a mais sincera. era um descalabro, um desespero, um desatino. perdida dentro das próprias fantasias, me encarava como se eu fosse um mito, um monarca, um deus – pagão, evidentemente. risos falsos ou sinceros, rimos e rimos e rimos. lavamos a alma sem precisar apelar para a panacéia do orgasmo. ainda com a risada estrondosa ela se dirigiu ao quarto, pude ver um pouco de lama no seu sapato de oncinha - que eu sempre odiei - sinal de quem, realmente, acabou de chegar. depois de não mais de cinco minutos,  voltou com a mala feita, de quem, realmente, está prestes a partir.

terça-feira, 13 de julho de 2010

cânhamo



me vem como o sol pintando dia na parede do meu quarto e levo, enfim, as mãos vazias ao alto na esperança de pescar qualquer-toda-coisa-alguma. me vem como um solo de coltrane, doido-doído, preenchendo os cantos vazios de algo que as pessoas - não muito criteriosas - se habituaram a chamar de alma.

que fique no meu peito. nem que seja como cânhamo, que já é costumeiro; mas que fique.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

só palavras

abre aspas fato ponto final gosto de brincar com as palavras ponto final gosto de ver que combinações geram algum efeito ponto final me achava prolixo vírgula mas vi que fico muito mais a vontade em ser sucinto vírgula deixando espaços em branco vírgula vácuos vírgula onde a imaginação alheia possa passear ponto final é uma grande brincadeira ponto final de fato vírgula eu só consigo ser sincero quando minto ponto final juro ponto final são as minhas mais sinceras mentiras ponto final fecha aspas

terça-feira, 1 de junho de 2010

incêndio

cerrei os olhos. optei por abrir mão de talvez o mais precioso dos sentidos, na vontade de, momentaneamente, aprimorar os outros quatro que ainda me restavam.

a mão esquerda, pequena e fria, entrelaçou-se por meus dedos afilados e tortos. enquanto a outra mão se pôs naturalmente sobre o meu peito, à ideal distância de sentir as arrítmicas palpitações de meu coração.

inclinou seu pescoço, intencionando alcançar o meu ouvido esquerdo, onde, lentamente, sussurrou oito singelas palavras que se relevaram principalmente pela maneira que foram ditas do que propriamente por suas conotações & denotações.

senti seu hálito morno e doce na minha face, chegando cada vez mais perto. lábios familiares roçando os meus, já secos. acendeu um pedaço de inferno no meu peito para, enfim, incendiar o que ainda restava.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

eros

"nos veremos amanhã?”
“acho que não vai dar...”
“por que?
“tenho uns trabalhos pra fazer, muita coisa pra resolver...”
“e não pode fazer isso outro dia?”
“poder, eu posso, mas vai complicar muito minha vida.”
“você sabe que esse dia é nosso, as sextas–feiras são sagradas...”
“ tá bem, tá bem. nos veremos, então.”
“sabia que eu ia te convencer dizendo que as sextas são sagradas...”
“isso não me convenceu. só nos veremos por saber que as nossas sextas são profanas...”

sábado, 22 de maio de 2010

rua méxico


foi quinta-feira passada que eu te vi atravessando por entre os carros, aquela rua que corta a av. almirante barroso que eu sempre esqueço o nome. enfim. fiquei confuso. não sabia se continuava, se parava, se retornava ou, ainda, se te atropelava. nada fiz. fiquei imóvel; incólume aos seus passos ligeiros. nada também poderia fazer já que dois carros, além do que eu me encontrava, nos separavam.

depois da sonora buzinada que eu recebi por imóvel continuar depois que o sinal abriu, eu despertei. engatei a primeira marcha; sutilmente, tirei o pé da embreagem e continuei. segui feliz. feliz, principalmente, por ter lembrado o nome da rua.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

nico e tina

“posso te falar uma coisa?”
“cê sabe que quando você pergunta isso, eu fico sem jeito de dizer que não...”
“mas de qualquer forma, se o que eu disser te incomodar, será culpa sua.”
“fala logo!”
“cê não sabe fumar.”
“você é incrível. usa os mais esdrúxulos pretextos pra falar mal de mim...”
“não to falando mal, to só constatando. cê fuma feio...”
“fumo feio? você é um idiota.”
“é sério... já viu a elizabeth taylor fumando? você é completamente o oposto. parece uma menina de sete anos fingindo fumar um lápis. só que você não tem sete anos, aí fica ridículo.”
“ridículo é você.”
“foi por isso que eu perguntei se eu podia falar.”

terça-feira, 18 de maio de 2010

bocejo


“vamos naquele restaurante italiano que cê gosta?”
“eu fiz um miojo pra mim.”
“hum... que tal ir assistir o novo do woody allen?”
“já assisti. até que agradou...”
“lê pra mim aquele poema do borges?”
“agora, não. to com aquele pigarro na garganta, sabe? tá incomodando...”
“e aquele disco do miles davis que cê queria me mostrar...”
“ouvi esse disco umas seis vezes hoje, deixa pra outro dia...”
“vamos transar, então?”
“já transei... até que não foi ruim...”

terça-feira, 11 de maio de 2010

íris


não me acuse nunca mais de que eu me escondo atrás dos meus óculos escuros. porque isso é a mais lavada das verdades e eu acabaria tendo que te dar razão. odeio te dar razão. prefiro dizer que é tudo por causa da sensibilidade da minha íris – ahhh, íris – e das rugas de expressão que aparecem toda vez que eu franzo as pálpebras na vontade de enxergar melhor seus lábios.

além do mais, eu tenho mantido minha privacidade. você, que aprendeu tanto a ler meus olhos, fica completamente analfabeta à me encarar de óculos escuros com seus olhos escuros.

e tenho insistido nos óculos escuros inclusive nos dias nublados; simplesmente, para que ninguém ouse ver meus olhos chovendo por causa de atélogos e nuncamais.

domingo, 9 de maio de 2010

só em espécie

nunca ter te escrito as palavras mais bonitas que eu já escrevi não significa que faltou-me vontade, tampouco inspiração. acredito que mesmo se eu escolhesse as minhas mais belas palavras ainda sim ficariam aquém da beleza das coisas não passíveis de adjetivação. ou talvez, não.

muito embora eu quisesse, não vou te escrever. tais palavras não são jogadas assim, por qualquer preço; elas devem ser deliciosamente negociadas, cada vírgula - , - tem valor inestimável. não se preocupe, as suas palavras – ou seriam minhas? – virão. saiba esperar e, principalmente, negociar.

não vendo sonho fiado.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

zeitgeist

quando dei-me conta, o seu cigarro já estava acesso. sim, eu lembro dela tirar o maço da bolsa, sacar o cigarro, mas não vi acender. não tem mais como negar meus lapsos de atenção. depois da primeira tragada. “continuando o assunto...”. como assim, continuando? onde havíamos parado? do que falávamos? enfim. “o brasil-tem-um-puta-potencial-não-aproveitado” “poderíamos ser o-país-do-futuro”. “porra, cara, é muito mais que atitude, é o espírito do tempo.” era bonito ouvir suas gírias de bandido explicando o zeitgeist – que eu nunca entendi. as palavras saindo daqueles lábios, puras, redondas, tão redondas quanto os bicos dos seus seios em alto relevo sob a amarrotada camiseta branca sem sutiã. “não, não quero amendoim.” ergueu o copo bem alto. no impulso da minha desatenção, ergui o meu também, esperando o brindar. “mais dois chopps, capitão”. baixei, meu copo. disse que não bebia. “vá se foder, moleque”. e riu. como quem me faz um cafuné.

vocabulário


“tem sido tão prazeroso que eu fico até um pouco confusa em relação ao que eu sinto.
“do que você está falando?”
“ah, sobre sensações... e... sentimentos.”
“meu bem, tudo ainda é muito recente...”
“mas é que eu acho que... eu... eu tenho certeza do que estou sentindo.”
“se for o que estou pensando, é melhor não dizer.”
“mas por que não? é tão simples, tão puro... eu...”
“não diga, por favor.”
“a vida é muito curta pra nos darmos ao luxo de nos privarmos de coisas tão belas. eu...”
“aprendamos todas as palavras, antes de resumirmo-las à uma.”

terça-feira, 4 de maio de 2010

aprendizado


meus dedos tortos tilintando sobre suas pernas transparentes de vidro era perfeito, um gesto ensaiado, uma melodia sendo tocada. um sinal claro de que algo ainda mais sublime estava prestes a começar. atavam-se abraços, extrapolavam-se corpos, devaneavam-se vidas.

eu aprendi.

não se deve, nunca, olhar fixamente para as pernas de uma mulher. ao menos que intente entregar-se por completo à elas.

sábado, 1 de maio de 2010

beijo



o gosto do desgosto não se esquece facilmente. felizmente, também não se apaga os deleitosos gostos já experimentados. e não existe absolutamente nada que impeça que o palato possa vir vislumbrar novos e distintos sabores. eis a magia. eis o espetáculo.

no teatro da boca, o áspero sempre propõe coadjuvância e faz festa quando o mise-en-scène é perfeito. é na base do improviso. não tem nenhuma demarcação. não tem nenhum ensaio.

não. também não tem hora pr'acabar.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

formidável


sinceramente, não distingo sua voz doce com palavras quentes da sua voz quente com palavras doces. ambas têm sempre o mesmo e irremediável efeito. violando meu ouvido, desabotoam as minhas melhores e piores intenções. nossa respiração estrondeada transcende o que é vida. com os freios da censura cortados, não há o que fazer.

e não há o que baste, e não há o que finda. há sempre o incansável transbordar de emoções. nos resta dançar ao som da nossa alma.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

boca


à luz de priscila andrade.

e de uma vez por todas, ela entendeu. respirou fundo, mas fundo mesmo. consumiu todo o ar do quarto fechado que estávamos. a janela, tentadora, pedia pra ser aberta, mas não, eu não me atreveria a recortar tal momento com o imperceptível movimento que fosse. embora não houvesse necessidade de se dizer mais nada, sabíamos, por nosso histórico de prolixidade, que palavras ainda seriam ditas.

assaz incomodado com meu ruidoso silêncio, pedi pra que ela falasse. entre negaças, eufemismos, hesitações, breves silêncios, elipses, cruzadas de pernas, cruzadas de braços, apócopes, recuos, lapsos, esfregar de olhos úmidos, ela tentou emitir duas dúzias de palavras repletas de sentido – para alguém, não para mim.

restou-me usar a minha boca hábil para impor o silêncio, a concordância e o consentimento.

terça-feira, 20 de abril de 2010

grosseria



“é muito sério o que você tem pra falar?”
“não sei, acho que sim.”
“diga.”
“assim... é que...”
“acho melhor falar de uma vez.”
“sem dúvida. mas perdi as palavras.”
“respira fundo.”
“perdi as palavras, não o ar.”
“não precisa ser grosso.”
“não precisamos de muita coisa, meu bem.”

quarta-feira, 14 de abril de 2010

deux couleurs


ontem, extraordinariamente, foi decretado que aqueles olhos de azul inverossímil e aquela pele corada passariam a colorir o mundo. não houvera flor, sol, céu ou barato psicotrópico algum à altura para competir com seus azuis e vermelhos, mais intensos que os da bandeira da frança ou luxemburgo ou holanda.

seus dedos longos tamborilando a síncope no maço surrado de derby azul e seu campari aguado mandavam para o espaço qualquer objetivação de pensamento.

aqui ela jaz. aqui ela jazz.

terça-feira, 13 de abril de 2010

dilúvio

eu lá já estava sentado há algum tempo e por ter esperado mais do que eu esperava esperar, não me surpreenderia com nada. 7 horas e meia de chuva torrencial não foram o suficiente para lavar o que havia sido sujo. mas estiou e, antes do sol cruzar a janela de madeira semi-aberta, ela irrompeu pela porta da frente num silêncio simétrico à seu traje de luto.

sentou ao meu lado. desatou religiosamente o laço do tênis do pé esquerdo. descalçou. não difícil de prever, fez o mesmo com o tênis do pé direito. arrancou a meia encharcada. e n'um só movimento - perfeito, plástico - pôs os pés sobre o sofá, dobrando sutilmente os joelhos. na mesma liturgia, deixou a cabeça desabar no meu ombro. respirou fundo e nunca mais choveu.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

sede


a planta dos seus pés - quentes - sobre o peito dos meus - frios - não era indelicadeza. não. era o que havíamos proposto, calados. sabíamos das veleidades do mundo e optamos por encontrar algo que desse sentido a tudo que passamos. algo que esquecesse tudo que, até então, eclipsara a nossa alma. encontramos. nós encontramos. nos encontramos.


fazes-me sede.
copo cheio.
café-com-leite frio atropelando a garganta, num gole só.
ahhhhhhh !
para, enfim, derramar tudo em meu peito.

terça-feira, 6 de abril de 2010

soslaio


não veio com flores nas mãos, mas nos seus olhos havia girassóis. da mesma maneira que não se mostra exatamente quem se é para qualquer um, a ferocidade branca do seu sorriso permanecia preservada.

não disse muita coisa. não precisava. porém, precisava todo-e-qualquer gesto meu. com seus olhos grandes – aqueles dos girassóis - telescopiava o eriçar dos pelos do meu braço. e, de fato, a virtude está em esconder o que se quer mostrar.

não, não me olhe assim.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

só isso


como eu desejei - exatamente como eu desejei - ela passou por aqui de novo. e com os olhos da cor que já sei de cor me falou de todas confusões & devoções. coisas demais, deveras inúteis; covardia não ter deixado a língua salivar um pouco mais.

- e ai?

- não quero mais. só isso.

e ela se foi. da mesma maneira que chegou. sem pagar suas dívidas.

e, exclusivamente, para mim, eu digo:

- não quero menos. só isso.


exatamente como eu desejei.

engasgo

a ela o céu não bastava. na calçada da barão da torre, seus pés, a seis palmos já estavam do chão. e nesse passo - indo-me - fui a mastigar nuvens e a engasgar-me com o chiclete de hortelã que não tinha mais gosto.

sorrisando, eu já sábia no que ia dá.



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ainda que

._______________)______perdoar
..ainda que seja necessário doar-se.
._________________'inda que doa.



nos tímpanos: Graveola e o Lixo Polifônico - Antes do Azul