"(...)Não te equivoques, Nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro.
Nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, Nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia. E essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, Nathanael, que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.
Quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. Sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. Que o meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti."
André Gide em "Os Frutos da Terra". Paris, 1927.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
tchaudades
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
alma, lama, mala
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terça-feira, 13 de julho de 2010
cânhamo
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segunda-feira, 7 de junho de 2010
só palavras
abre aspas fato ponto final gosto de brincar com as palavras ponto final gosto de ver que combinações geram algum efeito ponto final me achava prolixo vírgula mas vi que fico muito mais a vontade em ser sucinto vírgula deixando espaços em branco vírgula vácuos vírgula onde a imaginação alheia possa passear ponto final é uma grande brincadeira ponto final de fato vírgula eu só consigo ser sincero quando minto ponto final juro ponto final são as minhas mais sinceras mentiras ponto final fecha aspas
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terça-feira, 1 de junho de 2010
incêndio
cerrei os olhos. optei por abrir mão de talvez o mais precioso dos sentidos, na vontade de, momentaneamente, aprimorar os outros quatro que ainda me restavam.
a mão esquerda, pequena e fria, entrelaçou-se por meus dedos afilados e tortos. enquanto a outra mão se pôs naturalmente sobre o meu peito, à ideal distância de sentir as arrítmicas palpitações de meu coração.
inclinou seu pescoço, intencionando alcançar o meu ouvido esquerdo, onde, lentamente, sussurrou oito singelas palavras que se relevaram principalmente pela maneira que foram ditas do que propriamente por suas conotações & denotações.
senti seu hálito morno e doce na minha face, chegando cada vez mais perto. lábios familiares roçando os meus, já secos. acendeu um pedaço de inferno no meu peito para, enfim, incendiar o que ainda restava.
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quarta-feira, 26 de maio de 2010
eros
“poder, eu posso, mas vai complicar muito minha vida.”
“você sabe que esse dia é nosso, as sextas–feiras são sagradas...”
“ tá bem, tá bem. nos veremos, então.”
“isso não me convenceu. só nos veremos por saber que as nossas sextas são profanas...”
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sábado, 22 de maio de 2010
rua méxico

foi quinta-feira passada que eu te vi atravessando por entre os carros, aquela rua que corta a av. almirante barroso que eu sempre esqueço o nome. enfim. fiquei confuso. não sabia se continuava, se parava, se retornava ou, ainda, se te atropelava. nada fiz. fiquei imóvel; incólume aos seus passos ligeiros. nada também poderia fazer já que dois carros, além do que eu me encontrava, nos separavam.
depois da sonora buzinada que eu recebi por imóvel continuar depois que o sinal abriu, eu despertei. engatei a primeira marcha; sutilmente, tirei o pé da embreagem e continuei. segui feliz. feliz, principalmente, por ter lembrado o nome da rua.
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sexta-feira, 21 de maio de 2010
nico e tina
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terça-feira, 18 de maio de 2010
bocejo
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terça-feira, 11 de maio de 2010
íris
não me acuse nunca mais de que eu me escondo atrás dos meus óculos escuros. porque isso é a mais lavada das verdades e eu acabaria tendo que te dar razão. odeio te dar razão. prefiro dizer que é tudo por causa da sensibilidade da minha íris – ahhh, íris – e das rugas de expressão que aparecem toda vez que eu franzo as pálpebras na vontade de enxergar melhor seus lábios.
além do mais, eu tenho mantido minha privacidade. você, que aprendeu tanto a ler meus olhos, fica completamente analfabeta à me encarar de óculos escuros com seus olhos escuros.
e tenho insistido nos óculos escuros inclusive nos dias nublados; simplesmente, para que ninguém ouse ver meus olhos chovendo por causa de atélogos e nuncamais.
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domingo, 9 de maio de 2010
só em espécie
nunca ter te escrito as palavras mais bonitas que eu já escrevi não significa que faltou-me vontade, tampouco inspiração. acredito que mesmo se eu escolhesse as minhas mais belas palavras ainda sim ficariam aquém da beleza das coisas não passíveis de adjetivação. ou talvez, não.
muito embora eu quisesse, não vou te escrever. tais palavras não são jogadas assim, por qualquer preço; elas devem ser deliciosamente negociadas, cada vírgula - , - tem valor inestimável. não se preocupe, as suas palavras – ou seriam minhas? – virão. saiba esperar e, principalmente, negociar.
não vendo sonho fiado.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010
zeitgeist
quando dei-me conta, o seu cigarro já estava acesso. sim, eu lembro dela tirar o maço da bolsa, sacar o cigarro, mas não vi acender. não tem mais como negar meus lapsos de atenção. depois da primeira tragada. “continuando o assunto...”. como assim, continuando? onde havíamos parado? do que falávamos? enfim. “o brasil-tem-um-puta-potencial-não-aproveitado” “poderíamos ser o-país-do-futuro”. “porra, cara, é muito mais que atitude, é o espírito do tempo.” era bonito ouvir suas gírias de bandido explicando o zeitgeist – que eu nunca entendi. as palavras saindo daqueles lábios, puras, redondas, tão redondas quanto os bicos dos seus seios em alto relevo sob a amarrotada camiseta branca sem sutiã. “não, não quero amendoim.” ergueu o copo bem alto. no impulso da minha desatenção, ergui o meu também, esperando o brindar. “mais dois chopps, capitão”. baixei, meu copo. disse que não bebia. “vá se foder, moleque”. e riu. como quem me faz um cafuné.
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vocabulário
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terça-feira, 4 de maio de 2010
aprendizado
meus dedos tortos tilintando sobre suas pernas transparentes de vidro era perfeito, um gesto ensaiado, uma melodia sendo tocada. um sinal claro de que algo ainda mais sublime estava prestes a começar. atavam-se abraços, extrapolavam-se corpos, devaneavam-se vidas.
eu aprendi.
não se deve, nunca, olhar fixamente para as pernas de uma mulher. ao menos que intente entregar-se por completo à elas.
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sábado, 1 de maio de 2010
beijo
o gosto do desgosto não se esquece facilmente. felizmente, também não se apaga os deleitosos gostos já experimentados. e não existe absolutamente nada que impeça que o palato possa vir vislumbrar novos e distintos sabores. eis a magia. eis o espetáculo.
no teatro da boca, o áspero sempre propõe coadjuvância e faz festa quando o mise-en-scène é perfeito. é na base do improviso. não tem nenhuma demarcação. não tem nenhum ensaio.
não. também não tem hora pr'acabar.
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
formidável
sinceramente, não distingo sua voz doce com palavras quentes da sua voz quente com palavras doces. ambas têm sempre o mesmo e irremediável efeito. violando meu ouvido, desabotoam as minhas melhores e piores intenções. nossa respiração estrondeada transcende o que é vida. com os freios da censura cortados, não há o que fazer.
e não há o que baste, e não há o que finda. há sempre o incansável transbordar de emoções. nos resta dançar ao som da nossa alma.
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sexta-feira, 23 de abril de 2010
boca

e de uma vez por todas, ela entendeu. respirou fundo, mas fundo mesmo. consumiu todo o ar do quarto fechado que estávamos. a janela, tentadora, pedia pra ser aberta, mas não, eu não me atreveria a recortar tal momento com o imperceptível movimento que fosse. embora não houvesse necessidade de se dizer mais nada, sabíamos, por nosso histórico de prolixidade, que palavras ainda seriam ditas.
assaz incomodado com meu ruidoso silêncio, pedi pra que ela falasse. entre negaças, eufemismos, hesitações, breves silêncios, elipses, cruzadas de pernas, cruzadas de braços, apócopes, recuos, lapsos, esfregar de olhos úmidos, ela tentou emitir duas dúzias de palavras repletas de sentido – para alguém, não para mim.
restou-me usar a minha boca hábil para impor o silêncio, a concordância e o consentimento.
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terça-feira, 20 de abril de 2010
grosseria
“não sei, acho que sim.”
“diga.”
“assim... é que...”
“acho melhor falar de uma vez.”
“sem dúvida. mas perdi as palavras.”
“respira fundo.”
“perdi as palavras, não o ar.”
“não precisa ser grosso.”
“não precisamos de muita coisa, meu bem.”
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
deux couleurs
ontem, extraordinariamente, foi decretado que aqueles olhos de azul inverossímil e aquela pele corada passariam a colorir o mundo. não houvera flor, sol, céu ou barato psicotrópico algum à altura para competir com seus azuis e vermelhos, mais intensos que os da bandeira da frança ou luxemburgo ou holanda.
seus dedos longos tamborilando a síncope no maço surrado de derby azul e seu campari aguado mandavam para o espaço qualquer objetivação de pensamento.
aqui ela jaz. aqui ela jazz.
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terça-feira, 13 de abril de 2010
dilúvio
eu lá já estava sentado há algum tempo e por ter esperado mais do que eu esperava esperar, não me surpreenderia com nada. 7 horas e meia de chuva torrencial não foram o suficiente para lavar o que havia sido sujo. mas estiou e, antes do sol cruzar a janela de madeira semi-aberta, ela irrompeu pela porta da frente num silêncio simétrico à seu traje de luto.
sentou ao meu lado. desatou religiosamente o laço do tênis do pé esquerdo. descalçou. não difícil de prever, fez o mesmo com o tênis do pé direito. arrancou a meia encharcada. e n'um só movimento - perfeito, plástico - pôs os pés sobre o sofá, dobrando sutilmente os joelhos. na mesma liturgia, deixou a cabeça desabar no meu ombro. respirou fundo e nunca mais choveu.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
sede
a planta dos seus pés - quentes - sobre o peito dos meus - frios - não era indelicadeza. não. era o que havíamos proposto, calados. sabíamos das veleidades do mundo e optamos por encontrar algo que desse sentido a tudo que passamos. algo que esquecesse tudo que, até então, eclipsara a nossa alma. encontramos. nós encontramos. nos encontramos.
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terça-feira, 6 de abril de 2010
soslaio
não disse muita coisa. não precisava. porém, precisava todo-e-qualquer gesto meu. com seus olhos grandes – aqueles dos girassóis - telescopiava o eriçar dos pelos do meu braço. e, de fato, a virtude está em esconder o que se quer mostrar.
não, não me olhe assim.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010
só isso
como eu desejei - exatamente como eu desejei - ela passou por aqui de novo. e com os olhos da cor que já sei de cor me falou de todas confusões & devoções. coisas demais, deveras inúteis; covardia não ter deixado a língua salivar um pouco mais.
- e ai?
- não quero mais. só isso.
e ela se foi. da mesma maneira que chegou. sem pagar suas dívidas.
e, exclusivamente, para mim, eu digo:
- não quero menos. só isso.
exatamente como eu desejei.
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engasgo
a ela o céu não bastava. na calçada da barão da torre, seus pés, a seis palmos já estavam do chão. e nesse passo - indo-me - fui a mastigar nuvens e a engasgar-me com o chiclete de hortelã que não tinha mais gosto.
sorrisando, eu já sábia no que ia dá.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010
ainda que
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