"(...)Não te equivoques, Nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro.

Nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, Nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia. E essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, Nathanael, que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.

Quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. Sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. Que o meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti."

André Gide em "Os Frutos da Terra". Paris, 1927.

terça-feira, 1 de junho de 2010

incêndio

cerrei os olhos. optei por abrir mão de talvez o mais precioso dos sentidos, na vontade de, momentaneamente, aprimorar os outros quatro que ainda me restavam.

a mão esquerda, pequena e fria, entrelaçou-se por meus dedos afilados e tortos. enquanto a outra mão se pôs naturalmente sobre o meu peito, à ideal distância de sentir as arrítmicas palpitações de meu coração.

inclinou seu pescoço, intencionando alcançar o meu ouvido esquerdo, onde, lentamente, sussurrou oito singelas palavras que se relevaram principalmente pela maneira que foram ditas do que propriamente por suas conotações & denotações.

senti seu hálito morno e doce na minha face, chegando cada vez mais perto. lábios familiares roçando os meus, já secos. acendeu um pedaço de inferno no meu peito para, enfim, incendiar o que ainda restava.

3 comentários:

Flávia disse...

Por que consigo ver as cenas quando vocês escrevem? Isso é muito bom.

Ana C. disse...

Assim tu me orgulha, John.

Renan Lúcio disse...

Bom. Você está cada vez melhor. Mas devo dizer que esse texto é pessoal demais para provocar qualquer efeito nos que não compartilham desses momentos.
Mesmo assim, gostei.