"(...)Não te equivoques, Nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro.

Nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, Nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia. E essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, Nathanael, que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.

Quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. Sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. Que o meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti."

André Gide em "Os Frutos da Terra". Paris, 1927.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Farsa

Achei que a inspiração para as prosas havia me abandonado, como também achei que algumas pessoas o fizeram. De alguma maneira, o bel-prazer de escrever retorna em ondas fortes e revoltas, umedecendo as areias, secas por algum tempo, da imaginação.  Em pouco tempo já cogita dominar o litoral e afogar tudo que é vão e irreal.

Embora escrever seja fastigante para mim, tenho o feito. Não como um hobby, tampouco como um vício. Escrever têm sido a cura. Dos males não tenho muito o que falar e acredito ser deveras hipocondríaco listá-los e atribuir a cada um possíveis curas. E mesmo que o fizesse seria tarefa impossível encaixar o tão árduo ato de escrever como um elixir para qualquer mal passível de substantivação. Sendo assim, resta-me declarar minha escrita a cura para os males sem nomes. Não. Não estou dizendo, caro leitor, que irei lhe curar, nem mesmo que as palavras aqui expostas te farão algum bem. Apenas retifico que escrever me faz bem.

Não escrevo para contar nenhuma novidade, até porque de certa forma, há tempos não existem novidades. Não refiro apenas a minha vida, refiro-me à de todos nós. Saberias contar-me uma novidade, caro leitor? Sem a apreensão da dúvida, sei que virás com uma fofoca, podendo essa ter apenas dois tipos de protagonistas: um amigo comum ou alguém famoso . Desta maneira, afirmo com muita galhardia que já não existem novidades e tudo o que ouvimos são apenas simulacros de notícias já antigas com alguma mudança de personagem e lugar.

Escrever se configura como uma espécie de egoísmo banhado em prepotência. Toda essa manipulação de substantivos, verbos, advérbios, pronomes e, principalmente, adjetivos é uma maneira de se dizer algo não-novo, mas à sua maneira. Acabo de explicar o egoísmo, já a prepotência é derivada da falsa impressão de que o que está  sendo escrito é realmente merecedor de leitura, que não é apenas uma enfadonha embromação dos já citados – e explicados – simulacros.

Mesmo sendo exercida, com toda a imaginável classe, a manipulação das palavras será sempre assaz limitada, já que não existe dicionário que defina tudo que existe. Sem falar das coisas sem nome que só são percebidas através de gestos e subgestos. Qualquer um que escreve com total intuito descritivo,sugiro que desista, há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.

Devo referir-me, também, à minha própria indecisão, já havia dito que tinha desistido das prosas. Só que os versos não me dão alento suficiente, quando me dou conta, eles já acabaram. E além do mais, para escrever versos necessita-se uma vocação, um dom, ou, para os pragmáticos, técnica. É sabido que não são só esses três predicados  que me faltam. A prosa por sua vez é democrática, abriga os farsantes das palavras, como eu.  

Não tenho a intenção de ludibriar-te, caro leitor. De tudo que eu já escrevi, a manipulação de palavras aqui apresentada é a mais vazia. Eu também prefiro as estórias profundas, permeadas com minhas mentiras e verdades, mas às vezes precisamos do vazio até para a nossa própria expressão e conforto. Devo parar por aqui. Não adiantaria eu muito me alongar, buscando mais uma dúzia de metáforas. A única coisa que dura a vida toda é a vida, o resto é sempre precário, instável, fugidio e resto.

João Freitas fará 19 anos em breve e é, inegavelmente, um farsante.

 


 

Nos tímpanos: The Old Romantic Killer Band – Trouble Causer 

10 comentários:

Ana C. disse...

Sempre soube que teria amigos na farsa.
Uma boa farsa a sua, eu diria.

anaclara disse...

sempre pensei pelo outro lado da corda, pelo outro extremo da baía. vc foi um bom farsante, me enganou direitinho. hahaha
=]

materials disse...

Read your article, if I just would say: very good, it is somewhat insufficient, but I am still tempted to say: really good!
runescape gold

Vanessa disse...

João já fez 19 anos

Ana C. disse...

Na primeira leitura não havia me tocado do quão bom isso era.
É muito bom, João. Incrivelmente bom.

Clóvis disse...

Eu também prefiro.
Quanto às novidades, tudo ando um tanto quanto estagnado, talvez um desfecho de um ciclo, quiçá o intermédio de algum outro modo, mais leve, tomara!

Abraço!

pmf disse...

você, joão, melhora a cada texto escrito. já havia te dito isso. talvez por ser algo fatigante, a prática da escrita te consome e faz com que você seja maior através das palavras. gosto, e gosto muito, do que você escreveu.

parabéns! mesmo.

Nossa (!) T P M disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nossa (!) T P M disse...

Encontrei seu blog por acaso. E achei admirável a meneira como escreve. Esse texto em particular é muito bom, mas muito bom mesmo. Pesa um pouco nos momentos de identificação e ao mesmo tempo é gostoso de ler.
Parabéns.

Flávia disse...

Como você consegue escrever assim?!Muito bom.