"(...)Não te equivoques, Nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro.

Nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, Nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia. E essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, Nathanael, que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.

Quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. Sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. Que o meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti."

André Gide em "Os Frutos da Terra". Paris, 1927.

domingo, 12 de agosto de 2007

Legado



Pai,

Ainda não aprendi a andar de bicicleta e acho que realmente não aprenderei. Não tenho lembrança de termos batido bola ou soltado pipa alguma vez. Isso pode ter me atrapalhado algumas vezes na infância; mas calma, não será necessário pagar a conta de nenhum analista.

A ausência desses eventos poderia ser deprimente. Mas não é. Você pôde proporcionar tantos outros momentos que suprem e compensam essa ausência. Contigo pude saber o que era certo e o que era errado. Sempre soube me fazer aprender a lição – não a de colégio, a da vida mesmo – com esse seu bom humor único e inconfundível.

Nunca levantou a mão pra mim ou me deixou alguma vez de castigo. Até porque isso nunca foi necessário, pudeste me educar sem fazer uso da rudez ou da agressividade. Você sempre me mostrou o melhor caminho, dispensando a superioridade patriarcal; tratando-me de igual pra igual independente da idade que eu tivesse. Sendo sempre, acima de tudo, um grande amigo.

Nós podemos conversar livremente, sem o ultrapassado conservadorismo que ainda rege algumas famílias. É muito bonito ver a dedicação com que você mantém sua família, sem precisar ser intimidador e sisudo. Guardo com muito carinho nossas árduas disputas no vídeo-game, em que você sempre perdia. Te confesso que pensei várias vezes em deixar você ganhar... Mas não, não é assim que se educa um pai.

Tudo que eu venho conquistando eu devo a você e a minha mãe, que são o meu porto. Vocês são os alicerces dessa minha construção, graças a vocês, eu me sinto seguro pra tentar sempre alçar vôos mais altos. Honrando os seus esforços para com a minha criação com conquistas cada vez mais significativas.

Agradeço muito pelo voto de sua confiança. Por nem sempre acreditar nas coisas que eu vá fazer, mas acreditar em mim, acreditar que eu possa fazer. E me dar o seu imparcial apoio paterno.

Eu vejo que cada vez mais eu me pareço com você, fazendo as mesmas coisas, pensando da mesma forma, e infelizmente, cometendo os mesmos erros. Tentarei sempre corrigi-los, quero a cada dia me tornar uma pessoa melhor. Farei sempre o máximo para continuar a ser razão de seu orgulho.

Vejo o seu desgaste com as injustiças da vida e do trabalho. Vejo todos os dias, esse fardo que você é obrigado a carregar. Eu queria poder carregar um pouco desse peso, te proteger dos socos que a vida insiste em nos dar. Mas não posso fazer isso. Embora não pareça, ainda sou muito fraco e frágil. Mas uma coisa eu lhe prometo, eu vou vencer nessa vida. Todos os meus esforços serão para nunca decepcionar você e minha mãe. Farei jus a tudo que vocês me ensinaram.

E pai, não sei porque, mas não foram muitas as vezes que eu lhe disse “te amo”. Então, aproveito a data para dizer isso. E quero que saibas também que sinto muito orgulho do que você é. Que um dia eu possa ter uma índole tão exemplar quanto a sua e da minha mãe.

Feliz dia dos pais,

Te amo.

João Freitas tem 47 anos e tentará ser para o seu filho o que seu pai é para ele.




Nos Tímpanos: U2 – Sometimes You can’t make it on your own

2 comentários:

marcelle disse...

"com esse seu bom humor único e inconfundível."

único mas que a cada dia conta piadas piores.. aeoiuheaiuae

pai e filho que sempre se pareceram muito e hoje percebemos o resultado final.

feliz dia dos pais.

da pequena prima.

Paulinha disse...

sem palavras.

emocionante ate o ultimo fio de cabelo.