
As memórias da minha infância não são as mais felizes. Eu freqüentava a escola no turno da manhã e não aprendia nada além do que eu já sabia. Mas mesmo assim, eu era o aluno mais assíduo, esse era o único jeito de almoçar todos os dias. E a fome me deixava revoltado por não haver aulas nos finais de semana. As memórias da minha infância se resumem a tediosas tardes trancado em casa.
Meu pai ganhava a vida como caixeiro-viajante e minha mãe trabalhava como diarista. Não havia nenhum parente próximo ou algum vizinho disposto a cuidar de mim. E o bom-senso de meus pais fez-lhes perceberem que eu ainda era muito novo pra trabalhar. Logo, a solução era eu compreender a situação e passar as tardes em casa.
Não tínhamos televisão, mas não muito adiantaria ter, já que a companhia de luz cortara o nosso fornecimento por causa dos quatro meses de atraso no pagamento das contas. Mas tínhamos um rádio de pilha, o que também não muito adiantava porque ele não tinha pilha. Eu precisava de algum entretenimento. Por falta de melhores opções, minha rotina passou a ser espiar a rotina dos outros. Debrucei-me na janela para não morrer de tédio.
Eu morava num beco, então não eram muitas as pessoas que passavam em frente à minha janela. As pessoas que ali moravam tinham um semblante apático. Elas quase não sorriam, eram raros os momentos de felicidade. Depois de algumas semanas observando o marasmo de Dona Marlene tirando e pondo roupas da corda, vi que um homem se mudara para a humilde casa em frente a minha.
Era o homem mais pulcro que eu já houvera visto. Não falo de sua aparência física, essa por sua vez era modesta. Mas havia uma áurea envolvendo a sua pessoa. Era como se seu corpo exalasse ledice. Meus olhos identificaram que era um ser diferente de qualquer outro. Talvez fosse um anjo, ou um rei de algum império. No que quer que ele fosse, tinha algo especial no que fazia.
Embora a casa para onde aquele homem tinha se mudado fosse humilde, ao lado esquerdo tinha um quintal razoavelmente grande. Ele tratou de, no primeiro dia após sua mudança, cortar todo o mato que cobria aquela terra. O que despertou ainda mais a minha curiosidade e o meu encanto.
No dia seguinte, vi aquele homem com um macacão surrado e um chapéu de palha que mal lhe cabia na cabeça. Ele se dirigiu ao quintal, regou toda a terra e com sua enxada lavrou o terreno. E depois com muito zelo, distribuiu as sementes pelo terreno. Eu estava aflito para saber que diabos aquele homem estava plantando. Enquanto seu cultivo demorava a se desenvolver, a minha curiosidade crescia como erva daninha.
Passadas cinco semanas, estava lá uma planta estranha. Não se parecia com uma alface, muito menos com uma laranjeira. Eu me decepcionei, achei que aquele homem faria algo extraordinário e o que acontece? Ele cultiva uma planta que, por tamanha a minha consternação, defino como estranha. Era muito feia, o galho era fino e as folhas pequenas, de um verde nebuloso.
Estava muitíssimo decepcionado com o que tinha acontecido. Decorreu todo um mês, e eu não ousara a me aproximar daquela janela. Sentia raiva daquele homem que fez despertar em mim um encantamento e algo que poderia, pelos mais otimistas, ser chamado de esperança. Não queria acreditar que aquele homem era igual às outras pessoas, que a única coisa de especial dele era fruto de minha imaginação.
Mas eis que um dia, ao acordar eu sinto algo diferente no ar. Um sexto sentido me fez correr até a janela. Cada passo que eu dava em direção a ela fazia-me distinguir com mais clareza o que de diferente havia no ar. Era perfume! Então eu abro a janela, e sobre aquela planta, que há poucas semanas era horrenda, está uma flor. A flor mais linda que eu já pudera ter visto. Suas cores saltavam aos olhos. Suas pétalas eram de um roxo único que ofuscavam a visão e no centro um singelo ponto amarelo. E era como se aquele odor dançasse pelo ar, causando furor nas pessoas que estivessem nas redondezas.
Aquilo havia me enternecido tanto, que passei a observar as flores e aquele homem cada vez mais de perto. Passei a ficar no quintal, depois sentado na minha calçada, depois fui para a calçada do homem, e uma semana transcorrida, eu já estava no seu quintal cheirando de perto aquelas flores.
O homem se aproximou de mim. Pude ver em suas mãos os calos de quem a vida toda empunhou uma tesoura, mas que não perdera a ternura para brandir uma flor. E com sua voz rouca e sensível afirmou como as flores eram lindas. E eu perguntei:
_ Como se chama?
_ Amor-Perfeito.
_Como?
_ Essa flor se chama Amor-Perfeito.
Rindo, esclareci:
_Não a flor. O senhor...
_Ah sim, claro. Nicanor.
O nome da flor seria o que eu perguntaria logo em seguida. Mas como ele já tinha respondido, Esse foi o nosso único diálogo.
Passei a acompanhar o trabalho de Nicanor todas as tardes. Eu carregava sacos de terra, regava algumas vezes as flores, quase não nos falávamos, mas eu sabia o que ele precisava ou o que as flores precisavam. Todo o final de tarde, ele fazia um café quentinho, me dava uma xícara e me contava algumas estórias sobre o Amor-Perfeito
Todas as estórias eram sensacionais. Ele contava que a flor tinha origem européia; em francês, anuncia “le pansée”, o pensamento, o pedido de retorno, a força de atração que o pensamento exerce sobre as coisas,inclusive sobre o amor. Essas estórias serviam como ilustração para o perfume que eu sentia a cada suspiro.
Entre outros goles de café, me confessou que no século XVII, na Inglaterra, era costume entre as mulheres oferecer um pouco de terra dos amores-perfeitos aos seus maridos marinheiros, para que, no longínquo do oceano, eles não se esquecessem do amor que ficara nos portos.
As estórias, o café, o cheiro e a coloração das rosas, tudo havia me inspirado. E eu decidi trazer aquilo para o meu quintal. Arei meu quintal, irriguei corretamente, dispus com toda a cautela as sementes pela terra e sabia que agora era só questão de esperar. Passaram-se nove semanas, os botões apareceram, eu soube que na manhã seguinte, as flores já estariam ali.
Amanheceu o dia, e eu corri para ver a minha obra. Fiquei consternado. Antes mesmo de nascerem, todos os botões de flores haviam murchado. Achei que poderia ter sido por causa do calor forte que fez nesse dia. Então repeti o procedimento, esperei por volta de quatro semanas para os novos botões aparecerem. E na véspera eu já não me lembrava do que tinha acontecido na tentativa anterior. Porém no dia seguinte, vi os botões murchos novamente.
Eu queria uma explicação para aquilo tudo, fui até a casa do Nicanor. Contei tudo a ele, todo procedimento, etapa por etapa, ele balançava a cabeça positivamente, confirmando que tudo que eu havia feito estava certo. Então eu disse, aflito:
_ Me diga então, por que minha flor não nasceu?
Ele respondeu profeticamente:
_ Você não deu as perfeitas condições para ela.
_Como assim? Eu dei tudo que ela necessita...
_Meu jovem, para cultivar o Amor-Perfeito não basta apenas dar o que ela necessita, mas dar o que ela quer e se possível mais que isso... Converse com ela, dedique um pouco do seu tempo, trate-a como prioridade, dê um pouco de atenção... Elas se comoverão e se expressarão da melhor maneira possível, com flores e perfume.
Eu já tinha entendido a mensagem e o que eu precisava para cultivar a tão almeajda flor. Já tinha dado as costas para Nicanor, e caminhava em direção a minha casa. E ele me deu mais um conselho:
_Tente isso com as pessoas, provavelmente dará certo...
João Freitas tem 34 anos e é expert em plantar feijão em algodão...
Nos Tímpanos: Chico Buarque - Nicanor