
“A curiosidade é mesmo feita do que já se conhece com a imaginação.”
- Chico Buarque
Eu tinha pouco mais que um metro e meio, não chegara, ainda, a completar dez anos e já havia me cansado de jogar bola com os meninos da rua. Aquele campo tornou-se algo obtuso, totalmente dispensável para a minha existência... Era como se algo maior me atraísse... E atraia. Chamava-se Luiza – vinte centímetros mais alta. Meus sonhos a tornavam ainda maior. Acamado, poderia vê-la caminhar impunemente pelas ruas, fazendo com que os arranha-céus sentissem imensa inveja de sua postura e elegância. Mas o sol não tardaria a enobrecer o dia e, logo, Luiza deixaria de fulgurar nos meus sonhos.
Sim, eu era apaixonado por Luiza. Era um menino e amava aquela mulher. A diferença entre as nossas idades era de nove anos. Mas acreditava que daqui a algum tempo essa diferença não importaria. Grande tolice...
Passaram-se seis anos e eu ainda estava a espiar. Do meu quarto, eu via, perfeitamente, os seus fundos, ou melhor, os fundos da casa dela. Eu acordava cedo todos os dias para espiar ela tomando banho. Não dava para se ver muita coisa pelo basculante do banheiro, o vidro canelado distorcia o rosado dos seus seios, mas a minha imaginação tratava de reconstituí-los perfeitamente. Nos fins de semana, ela lavava as roupas. Eu torcia para que chovesse para ela não pôr as roupas no varal; ver aquelas roupas sem a dona fazia-me imaginar a dona sem elas...
O que me deixava esperançoso era ela não ignorar a minha existência. Quando víamo-nos, ou melhor, quando ela via-me, me cumprimentava com um sorriso estampado no rosto. Eu até achava que poderia haver algum interesse dela por mim. Mas percebi que não havia quando a vi falando, dessa mesma forma, com o feirante, o peixeiro, o pedinte... A danada era simpática por natureza.
Para a minha infelicidade, Luiza se mudou para outra cidade, por causa do emprego que havia encontrado. Demorei a me conformar que nunca mais a veria. Acabei fazendo tudo para esquecê-la, acho que acabei conseguindo...
- Se isso fosse um filme ou uma novela, entraria agora uma vinheta de “16 anos depois” -
Eu acabei me formando em odontologia e a essa altura já estava casado, vivia monotoname..., quer dizer, perfeitamente com a minha esposa e filhos. Não me lembrava mais de Luiza, sua imagem estava perdida em algum desses armários empoeirados de minha mente. Mas eis que um dia, caminhando pelas ruas da Urca, meus olhos se perdem dentro do quintal de uma casa antiga. E por ironia – ironia não, insensatez - do destino, como em um déjà-vu, reconheci aquelas roupas no varal, obviamente, não eram as mesmas roupas, mas eu sabia a quem pertenciam.
Não hesitei; bati palma, toquei a campainha, gritei o seu nome. De dentro da casa, sai o meu sonho de menino, não consigo perceber as mudanças em sua aparência, talvez por que eu já sonhava com ela desta forma. Luiza me reconhece e me convida a entrar, eu não esperava tanta receptividade, talvez a sua solidão tenha feito dela uma anfitriã bastante agradável.
Ao vê-la, a minha paixão veio à tona. E agora, eu não sentia mais medo. Confessei que a amava e que, talvez, ainda a amasse e que eu estava disposto a largar tudo por ela. Luiza abriu um sorriso e, para a minha surpresa, disse que também gostava de mim, e que não mostrou seu interesse preteritamente por causa da diferença de idade. Já havíamos nos entregado ao desejo recíproco e há essa hora já nos enroscávamo-nos em seu sofá. E mesmo com ela em meus braços, não me detive a pensar que a diferença de idade continuava a mesma e que... que... que... Nada! Quando vi os seios rosados, parei de pensar.
"Como defini-la quando está vestida, se ela me desbunda como se despida? Como defini-la quando está desnuda, se ela é viagem como toda nuvem? Como desnudá-la quando está vestida se está mais despida do que quando nua? Como possuí-la quando está desnuda, se ela toda é chuva, se ela toda é vulva?"
- Ferreira Gullar
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